“IA pode apoiar o processo investigativo, mas nunca substituir a análise crítica do investigador”

Em keynote de abertura no Security Leaders Porto Alegre, o delegado Emerson Wendt destaca os desafios de investigações dos crimes cibernéticos na era da Inteligência Artificial, além das falhas conceituais na preservação de provas digitais

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“O uso de IA em investigações policiais exige documentação rigorosa sobre ferramentas utilizadas, prompts aplicados e revisão humana obrigatória. A IA pode apoiar o processo investigativo, mas nunca substituir a análise crítica do investigador”, destaca o delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, professor e especialista em segurança digital, Emerson Wendt, durante a abertura do Congresso Security Leaders, que acontece hoje (27) na capital gaúcha. 

 

Um levantamento apresentado por Wendt revelou que aproximadamente um terço dos entrevistados não sabe avaliar corretamente os impactos de IA e deepfakes nas investigações digitais. O delegado citou inclusive decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que anulou relatórios produzidos com apoio de ferramentas como Gemini e Perplexity sem critérios metodológicos adequados.  

  

Na abertura do Security Leaders Porto Alegre, o delegado trouxe ao debate os riscos técnicos e jurídicos que ameaçam a validade de evidências digitais no Brasil e os desafios da investigação na atualidade. Ao direcionar a discussão para o ambiente corporativo, Wendt afirmou que as empresas passaram a exercer um papel central como primeiras responsáveis pela preservação das evidências digitais após um ataque cibernético.  

 

No entanto, segundo ele, muitas organizações ainda falham ao reportar incidentes sem fornecer informações técnicas básicas, como logs detalhados, registros de acesso, histórico de sistemas afetados e documentação das ações executadas durante a resposta ao incidente. Sem esses dados, investigações e processos judiciais tornam-se mais lentos e menos eficientes. 

 

Evidências digitais 

Para ele, o principal gargalo no processo de investigação de crimes cibernéticos não está apenas em identificar o criminoso, mas em garantir que a prova permaneça íntegra durante todo o processo. Ele reforça que, após o Pacote Anticrime de 2019, a cadeia de custódia passou a exigir rastreabilidade rigorosa das evidências digitais desde o primeiro contato com o incidente até a conclusão da investigação. O delegado alertou que muitas fragilidades surgem antes mesmo da atuação policial, principalmente dentro das empresas vítimas de ataques cibernéticos.  

 

“Logs incompletos, descarte inadequado de informações e ausência de documentação técnica acabam comprometendo investigações inteiras. Se a prova perde integridade no caminho, todo o processo pode ser questionado”, afirmou o delegado, que também destacou erros conceituais ainda comuns entre profissionais da área.  

 

Em uma pesquisa realizada com policiais e integrantes do Ministério Público de diferentes estados, parte dos entrevistados demonstrou dúvidas sobre a validade jurídica de ferramentas open source na preservação de evidências digitais. O especialista reforçou que soluções gratuitas amplamente reconhecidas internacionalmente possuem legitimidade técnica e jurídica, contrariando a percepção de que apenas plataformas proprietárias seriam confiáveis. 

  

Outro ponto de atenção foi a interpretação equivocada sobre capturas de tela e atas notariais, segundo o delegado, prints isolados são importantes, apesar de não possuírem força absoluta e dependerem de provas correlacionais para ganhar validade. Ele também desmistificou a ideia de que a ata notarial garante a veracidade de um conteúdo digital. “O tabelião certifica o que está sendo exibido na tela naquele momento, mas isso não significa que o conteúdo seja verdadeiro”, explicou, alertando para o crescimento de fraudes digitais e manipulação de informações. 

   

No fim da apresentação, Emerson Wendt ainda destacou que os desafios da investigação digital exigem integração entre setor público e privado, além de investimentos contínuos em capacitação, padronização de processos e maturidade operacional. Em um cenário marcado pelo avanço da IA, dos deepfakes e da crescente complexidade dos ambientes digitais, Wendt defendeu que a preservação adequada das evidências e a padronização dos processos investigativos passam a ser elementos centrais para garantir a validade jurídica das provas e a efetividade do combate aos crimes cibernéticos.

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