A redução do tempo necessário para explorar vulnerabilidades e a sofisticação das técnicas utilizadas por criminosos estão mudando as exigências sobre as equipes de cibersegurança. Com a inteligência artificial ampliando a capacidade de reconhecimento de alvos e adaptação de ataques, as empresas precisam rever a forma como detectam ameaças e coordenam suas respostas. Esse foi o cenário discutido no Security Operations Summit 2026, promovido hoje (04) pela Fortinet.
Na abertura do encontro, que tinha como objetivo aprofundar temas de inteligência de ameaças, tendências e melhores práticas, Anthony James, vice-presidente executivo de Marketing da Fortinet, destacou o uso da IA por criminosos para reconhecer alvos e adaptar técnicas. Segundo ele, as equipes de defesa enfrentam dados fragmentados, ferramentas desconectadas e excesso de alertas, com menos tempo para detectar e responder ataques cibernéticos.
Segundo relatório do FortiGuard Labs, o intervalo entre a divulgação de uma vulnerabilidade e sua exploração (Time to Exploit, ou TTE), que superava seis dias há dois anos, ficou abaixo de cinco dias em 2025 e já era inferior a 20 horas na medição do segundo semestre de 2026.
Derek Manky, Chief Security Strategist e VP global de Threat Intelligence da Fortinet, associou o cenário à IA agêntica e aos serviços criminosos da dark web (Crime-as-a-Service, ou CaaS). A Fortinet observou aumento de 389% no ransomware, com infraestrutura crítica, saúde e manufatura entre os setores visados. Credenciais roubadas e agentes com acesso a sistemas e APIs também são alvos. O FortiGuard Labs identificou 170 técnicas de ataque contra sistemas de IA, mais de 70 delas ativas.
Agentes de IA ampliam a superfície de risco
Duncan Brown, VP de Segurança e Confiança Global da IDC, alertou que agentes implantados pelas empresas podem operar sem controle. Em pesquisa citada pelo analista, 64% das organizações identificaram agentes ou scripts não autorizados em processos de negócio. “A ameaça imediata dos agentes pode ser, na verdade, o dano autoinfligido por implantações de IA agêntica mal governadas”, afirmou.
Brown apontou ainda o descompasso entre vulnerabilidades e correções: a aplicação de patches em sistemas operacionais leva de uma a quatro semanas, enquanto falhas podem ser exploradas em menos de um dia. Além disso, 38% das organizações pesquisadas consideram as ameaças impulsionadas por IA o risco mais preocupante do ano.
Para mudar esse cenário e modernizar o SOC, o executivo apresentou três modelos: plataformas de um único fornecedor, hubs que conectam soluções de diferentes fabricantes e integrações internas. Todos dependem de IA e automação. “Simplificar sistemas, controlar acessos e proteger modelos contra manipulação e vazamentos também contribui para um ambiente mais seguro”, acrescenta Robert May, VP executivo de Tecnologia e Produtos da Fortinet
Governança e visibilidade na prática
Na H-E Parts International, Jill Renfroe, vice-presidente global de TI, conversou com Ben Wilson, VP sênior de Produtos da Fortinet, sobre governança. Renfroe relatou que a IA sofisticou ataques de phishing e falsificações de identidade, inclusive tentativas de personificar executivos.
Como resposta, a empresa estabeleceu uma política de uso, adotou o ChatGPT Enterprise e criou grupos de embaixadores para orientar funcionários. “Se você não permite que seus funcionários utilizem IA, eles vão utilizá-la de maneira insegura. O melhor caminho é começar pela governança, estabelecer uma política e deixar claro quais são as formas seguras de uso”, explicou.
Renfroe também destacou a prevenção contra perda de dados (DLP), usada para identificar o envio de documentos sensíveis para fora da rede. Para ela, a IA deve ampliar a capacidade das equipes, não substituir profissionais. “A IA alucina, precisa ser orientada e configurada corretamente. Ela comete erros. Por isso, ainda é necessário ter pessoas no processo. A tecnologia fornece ferramentas e visibilidade para que as equipes façam mais, mas não elimina a necessidade de supervisão humana.”
Para os próximos 12 a 18 meses, recomendou priorizar integração de dados, proteção de endpoints e visibilidade das informações que circulam na empresa. “Não presuma que comprar uma ferramenta de segurança torna automaticamente sua organização segura. Você pode ter as melhores soluções, mas, se não estiverem ativadas, conectadas e conversando entre si, não cumprirão seu papel.”