Empresas aceleram adoção da IA, mas ainda enfrentam dificuldades para gerar resultados

No Security Leaders Salvador, Fábio Martins alertou que o rápido avanço da Inteligência Artificial nas organizações não tem se traduzido em ganhos proporcionais de produtividade e apresentou os principais fatores para mudar esse cenário

Compartilhar:

A Inteligência Artificial nunca esteve tão acessível. A evolução acelerada dos modelos generativos, a abundância de dados, o baixo custo de implementação e a interação por linguagem natural colocaram a tecnologia ao alcance de praticamente qualquer área de negócio, reduzindo barreiras que antes exigiam grandes investimentos ou dependência exclusiva dos times de TI.

 

Mas, apesar do entusiasmo do mercado e da adoção em larga escala, uma pergunta tem mobilizado líderes ao redor do mundo: estamos realmente indo bem na adoção da Inteligência Artificial? Foi em torno dessa provocação que Fábio Martins, Founder do IGOV.IA, conduziu sua palestra durante o Security Leaders, realizado ontem (10) em Salvador.

 

O questionamento surge em um momento em que a IA já deixou de ser tendência para se tornar realidade operacional. Segundo dados apresentados pelo executivo, 88% das organizações já adotaram soluções de Inteligência Artificial e 85% pretendem ampliar seus investimentos. No entanto, apenas 22% afirmam ter percebido aumento efetivo de produtividade. Para Martins, esse descompasso evidencia que a implementação da tecnologia, por si só, não garante a geração de valor esperada.

 

Na avaliação dele, o mercado chegou a um ponto em que a discussão precisa migrar do uso da IA para a governança da IA. Afinal, se a jornada de adoção avança rapidamente, os mecanismos necessários para garantir resultados sustentáveis ainda caminham em ritmo mais lento.

 

Entre os principais gargalos observados estão a ausência de uma estratégia clara, dificuldades relacionadas à cultura organizacional, comunicação e capacitação das equipes, além de desafios envolvendo automação de processos, qualidade dos dados, compliance, ética, Segurança da Informação e gestão do ecossistema de fornecedores. Segundo o especialista, organizações mais maduras precisam aprender a trabalhar com orquestração, conectando todas essas frentes em um modelo integrado de governança.

 

10 dimensões da governança da IA

 

Foi justamente para endereçar esses desafios que Martins apresentou as dez dimensões da governança em Inteligência Artificial.

 

1.O modelo começa pela estratégia e governança, consideradas a base para direcionar iniciativas de IA aos objetivos do negócio, definir responsabilidades e estabelecer critérios para tomada de decisão. O executivo destacou que muitas empresas avançaram na adoção das tecnologias, mas ainda permanecem em um estágio intermediário quando o assunto é governança.

 

2.A segunda dimensão envolve cultura, pessoas e comunicação. Para ele, a transformação impulsionada pela IA ocorre mais rapidamente do que a atualização das competências profissionais, criando lacunas de capacitação e resistência organizacional. O desafio não se limita à tecnologia, mas à capacidade das empresas de preparar seus colaboradores para novos modelos de trabalho.

 

3.Outro ponto central está na estrutura tecnológica e na automação de processos. Com modelos mais poderosos, agentes autônomos e crescente demanda computacional, cresce também a necessidade de mecanismos robustos de supervisão e controle. Quanto maior a capacidade tecnológica, maior a exigência por governança.

 

4.A dimensão financeira também ganhou destaque. Martins alertou que a expansão da IA sem uma gestão adequada dos investimentos pode transformar ganhos de escala em aumentos descontrolados de custos. Nesse contexto, monitorar despesas, retorno sobre investimento e eficiência operacional se torna fundamental para sustentar a evolução dos projetos.

 

5.A qualidade dos dados aparece como outro elemento crítico. Considerando que a IA depende diretamente das informações utilizadas para treinamento e operação dos modelos, garantir consistência, contexto e confiabilidade dos dados passa a ser uma condição indispensável para obter resultados relevantes.

 

6.Na sequência, a governança precisa contemplar o impacto gerado nos usuários, bem como aspectos de compliance, riscos e ética. O executivo chamou atenção para a necessidade de transparência e rastreabilidade, reforçando que a simples declaração de princípios não é suficiente. As organizações precisam ser capazes de demonstrar evidências de conformidade e responsabilidade na utilização da tecnologia.

 

7.Outro eixo fundamental da governança em IA envolve compliance, riscos e ética. Durante a apresentação, Fábio Martins destacou que o cenário atual exige a necessidade de transparência, rastreabilidade e prestação de contas. Segundo ele, não basta que as organizações declarem princípios éticos para o uso da tecnologia, é preciso demonstrar, por meio de evidências, como os modelos operam, quais dados são utilizados e quais mecanismos existem para mitigar riscos regulatórios, operacionais e reputacionais.

 

8.A Segurança da Informação também ocupa posição estratégica dentro desse modelo. Com o aumento dos incidentes relacionados aos sistemas de IA e ao crescimento das ameaças direcionadas aos modelos, a cibersegurança deixa de ser uma preocupação periférica e passa a integrar o núcleo da governança.

 

9.A gestão do ecossistema de fornecedores aparece como outra dimensão estratégica da jornada de adoção. Com a expansão acelerada do mercado de IA, cada vez mais empresas dependem de modelos, plataformas e serviços oferecidos por terceiros. Nesse cenário, Martins chamou atenção para a necessidade de avaliar não apenas a capacidade tecnológica dos parceiros, mas também seus processos de governança, segurança, conformidade e integração.

 

10.Fechando as dez dimensões da governança, Martins ressaltou o monitoramento, pois a IA não pode ser tratada como um projeto com início, meio e fim. Segundo o executivo, a adoção exige acompanhamento permanente de indicadores relacionados a desempenho dos modelos, conformidade, inventário de aplicações, incidentes de segurança e retorno sobre investimento. Isso serve para identificar desvios, corrigir problemas e alimentar ciclos constantes de evolução, garantindo que a tecnologia continue entregando valor ao longo do tempo.

 

“O desafio das organizações já não consiste apenas em adotar IA, mas em criar as condições necessárias para que essa adoção gere valor real para os negócios e para a sociedade”, conclui.

 

Destaques

Colunas & Blogs

Conteúdos Relacionados

Security Report | Destaques

O paradoxo da inovação: “estamos prontos para o futuro que já chegou?”

No keynote de abertura do Security Leaders Salvador, Tatyana Souza, Gerente de TI da Santa Casa da Bahia, destaca por...
Security Report | Destaques

Security Leaders debate governança de IA, riscos e GRC em Salvador

Nesta quinta-feira, no Hotel Deville Prime Salvador, a 9ª etapa do roadmap 2026 reúne grandes nomes do setor para discutir...
Security Report | Destaques

Como a cultura cibernética impulsionou o negócio da Copa Energia

Após a integração de culturas corporativas distintas, a companhia investiu no aculturamento em Cibersegurança para fortalecer a colaboração entre áreas...
Security Report | Destaques

Braskem reduz superfície de ataque com automação e gestão contínua de riscos

Em estudo de caso detalha a evolução na gestão de riscos na companhia e mostra como tecnologia e atuação de...