O uso em massa de ferramentas de inteligência artificial para criar versões estilizadas de usuários acende um alerta no setor de Cibersegurança. Embora inofensivas à primeira vista, essas brincadeiras reduzem a barreira psicológica e induzem o público a fornecer voluntariamente dados valiosos, transformando a diversão em superfície de ataque para criminosos digitais.
Segundo Daniel Porta, CISO da DANRESA, o problema central não reside na tendência em si, mas no comportamento de massa que ela produz. A pressa e o impulso de participar fazem com que o usuário deixe de questionar quem recebe os dados, ignore os termos de uso e desconsidere a verificação de permissões.
O alerta ganha relevância diante do avanço de fraudes com inteligência artificial. O Identity Fraud Report 2025–2026, da Sumsub, apontou um crescimento de 126% nas fraudes por deepfakes no Brasil em 2025, concentrando quase 39% dos casos da América Latina. O avanço coincide com dados da ANPD e da EY, que indicam que 84% dos bancos comerciais utilizam biometria facial no onboarding de clientes.
“A combinação entre a facilidade de síntese de rosto e voz e a distribuição descuidada de biometria nas redes sociais cria um cenário propício para a engenharia social moderna. Os ataques atuais não dependem apenas de senhas roubadas, mas de contexto, como nomes, rotinas, fotografias e vozes coletadas de forma fragmentada ao longo do tempo. A popularidade gera uma falsa sensação de segurança, eliminando os segundos de reflexão que normalmente protegem o usuário”, explica Porta.
A DANRESA orienta que o objetivo não é proibir a participação em tendências digitais, mas incentivar a “fricção consciente”. A recomendação é que os usuários avaliem o uso de plataformas oficiais, a necessidade dos dados solicitados, a transparência na retenção de informações e os riscos do armazenamento prolongado fora de seu controle.
Nas empresas, o risco afeta diretamente executivos e porta-vozes expostos. A DANRESA defende a atualização de controles internos, incluindo canais independentes de verificação financeira e o treinamento de equipes para compreender que áudios e vídeos não são provas definitivas de identidade.
“Na era dos deepfakes, a maior ironia é que, enquanto as empresas investem bilhões para autenticar quem somos, nós mesmos continuamos distribuindo pedaços dessa identidade em troca de alguns segundos de diversão”, conclui Porta.