“A tecnologia mais rápida não vence. Vence aquela que as pessoas escolhem confiar.” A frase de Cris Adjuto, diretor de Segurança Cibernética do Bradesco, sintetizou a mensagem central no palco do Congresso Security Leaders Nacional 2026: na economia digital, a confiança deixou de ser apenas uma consequência da Segurança e passou a influenciar diretamente a escolha dos clientes, a reputação das empresas e a geração de receita.
Com o tema “O valor da confiança na era digital”, o executivo mostrou como a relação entre consumidores e organizações mudou com a digitalização dos serviços. Se antes a credibilidade de um banco era representada por agências, cofres e pelo relacionamento com o gerente, hoje ela depende de uma estrutura que o cliente raramente vê, mas utiliza diariamente por meio de aplicativos, transações digitais e serviços em nuvem. A confiança está na expectativa de que seus dados permaneçam íntegros, suas operações funcionem e as decisões tomadas em seu nome sejam legítimas.
Essa transformação amplia a responsabilidade das áreas de cibersegurança. Segundo Adjuto, a confiança digital se apoia em quatro pilares: resiliência operacional, experiência, controle dos dados e ética algorítmica. “A segurança da informação sustenta essa estrutura. Uma indisponibilidade pode comprometer a experiência; um vazamento afeta a privacidade; e a manipulação de algoritmos coloca em dúvida a integridade das decisões automatizadas. Quando um desses elementos falha, o impacto ultrapassa a infraestrutura tecnológica e chega à relação com o consumidor”, afirma.
O risco também se reflete nos resultados do negócio. Durante a apresentação, o executivo citou um dado atribuído à McKinsey segundo o qual 40% dos consumidores deixaram de fazer negócios com uma empresa ao descobrir que ela não protegia seus dados. Para ele, a perda de confiança pode levar à migração de clientes e gerar consequências reputacionais difíceis de reverter. Em um ambiente no qual milhares de transações podem ocorrer sem incidentes, uma única falha relevante é capaz de abalar a credibilidade construída ao longo do tempo.
Entre a experiência digital e a validação de Segurança
A popularização de ferramentas de inteligência artificial também adiciona uma nova camada de complexidade. Deepfakes e identidades sintéticas tornam mais difícil distinguir interações legítimas de tentativas de fraude, exigindo mecanismos de validação que não dependam exclusivamente do reconhecimento facial ou da aparência de autenticidade de uma pessoa.
Nesse contexto, Adjuto chamou a atenção para o equilíbrio entre facilidade de uso e proteção. “Se a ausência de verificações pode gerar desconfiança diante de uma transação de alto valor sem validação, o excesso de etapas também prejudica a experiência e pode levar o consumidor a desistir da operação”. A resposta, segundo o executivo, está no chamado atrito positivo: elevar o nível de validação de acordo com o contexto e o risco de cada transação, em vez de aplicar controles indiscriminadamente.
A discussão também passa pela forma como a segurança é apresentada à alta liderança. Para Adjuto, o debate não deve se limitar à quantidade de vulnerabilidades identificadas, mas considerar a exposição real do negócio, os riscos para a receita e a reputação e as medidas necessárias para proteger as operações. A segurança precisa participar desde a concepção dos produtos, acompanhando o ritmo de inovação sem se tornar um obstáculo à entrega.
O executivo citou ainda a privacidade como atributo de marca, usando como exemplo a comunicação da Apple sobre a proteção de dados em seus dispositivos. A iniciativa ilustra como a Segurança pode ser percebida pelo consumidor como parte do valor de um produto, e não apenas como um recurso técnico invisível.
Ao encerrar o keynote, Adjuto reforçou que a confiança digital exige uma mudança de perspectiva das lideranças: proteger sistemas é essencial, mas demonstrar como essa proteção preserva a relação com o cliente e sustenta os negócios é igualmente importante. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, a vantagem competitiva não está somente em oferecer soluções mais velozes, mas em construir experiências nas quais as pessoas se sintam seguras para confiar.