Todo mês, milhões de empresas e microempreendedores aguardam o vencimento de guias como o DAS e o DARF para recolher tributos e encargos federais. Essa rotina previsível é justamente o que torna o golpe possível: quando a vítima já espera o documento, a guia falsa não precisa convencer, ela apenas precisa chegar na hora certa. O cenário reflete uma escalada de fraudes digitais no país, impulsionada pelo volume de ataques de malwares e tentativas de desvio de pagamentos.
É sobre esse contexto que se debruça “O Código da Fraude: Anatomia da Extorsão Tributária e o Mercado de Guias Falsas”, relatório produzido pelo INGENI, setor de inteligência avançada da Redbelt Security, com autoria do engenheiro de ameaças Wagner Farias. O estudo mapeia 18 vetores de ataque organizados em quatro camadas, detalhando desde o vazamento de dados cadastrais até o uso de inteligência artificial para industrializar os golpes.
O relatório evidencia a operação simultânea de duas indústrias criminosas. “Em um caso, a máquina adultera o pagamento sem que ninguém perceba. No outro, a pessoa é induzida a pagar um documento que já chegou falso. As defesas contra cada uma são diferentes, e confundir os dois cenários leva a investir no controle errado”, afirma Farias. A primeira frente atua por engenharia social documental, entregando boletos com dados reais obtidos em vazamentos, mas com QR codes ou códigos de barras direcionados a contas laranjas.
A segunda vertente utiliza malwares bancários, como a técnica man-in-the-browser, em que programas maliciosos instalados na máquina da vítima reescrevem a linha digitável do boleto legítimo no instante da exibição. As 18 técnicas mapeadas distribuem-se em camadas que cobrem a exfiltração de dados corporativos, a adulteração de documentos, o uso de IA e engenharia social avançada, e mecanismos de contrainteligência para burlar defesas.
A inteligência artificial tem acelerado todo o processo, com registros de fraudes por deepfake e campanhas simulando contadores ou atendentes do governo via WhatsApp. O impacto financeiro e operacional atinge desde pequenos negócios até órgãos públicos, como o registrado em Santa Catarina, onde dezenas de empreendedores foram lesados por guias falsas de regularização do MEI.
Para a maioria das situações, a defesa mais eficaz não exige tecnologias complexas. “A ameaça é séria e escalou, mas quase toda ela depende de um único momento de pressa. O antídoto mais poderoso não é um produto caro, é o hábito de parar, conferir o canal oficial e recusar a urgência. Guia legítima de tributo federal não chega por mensagem, não tem Pix exclusivo para conta de pessoa física e nunca exige pagamento em minutos”, conclui Farias.