O transporte contemporâneo avança para a ampla conectividade entre motoristas, veículos e infraestrutura de automóveis. A comunicação entre os carros e o ambiente ao redor se tornou peça essencial para o uso seguro da locomoção nas ruas e estradas do mundo, com dados saindo dos veículos para as estruturas ao redor e vice-versa. Essa troca abre novas oportunidades e desafios tanto para pessoas, quanto para os ambientes digitais.
Essa reflexão foi feita durante o painel “From Garage to Cloud: Protecting Vehicles in the Age of Cyberthreats”, apresentado durante a RSA Conference de 2026. De acordo com o CISO LATAM da Volkswagen Group, Júlio Padilha, a tecnologia no cerne dessa nova realidade se chama Vehicles to Everything (V2X), que permite um veículo automotor receber informações de diversas fontes ao seu redor, desde pedestres até veículos e infraestruturas de trânsito.
A ideia da tecnologia é viabilizar troca proativa de dados e tornar o transporte urbano mais seguro e eficiente. “Esses conceitos são vistos na prática na Alemanha, onde os automóveis podem alterar seu limite de velocidade a depender do ambiente ao seu redor. Ao detectar, por exemplo, um sinal vermelho à frente, ou algum acidente, o carro pode reduzir a velocidade para economizar combustível e proteger vidas em risco”, comenta ele.
Mas, assim como em outros ambientes cuja conectividade se tornou um diferencial determinante, também o setor de transportes passou a lidar com ameaças cibernéticas reais, cujo objetivo é paralisar o funcionamento dessas conexões ou mesmo direcioná-las ao favor do agente hostil. Assim, mais do que nunca, o V2X transforma os automóveis em partes de uma rede de tempo real, e por isso, a Cibersegurança se torna fator crucial.
Nesse sentido, o Vice-presidente da organização sem fins lucrativos Car Hacking Village, Kamel Ghali, alerta justamente para o conceito cada vez maior de hackeamento de veículos. Ao desenvolver inovações digitais que viabilizem autonomia e alta conectividade veicular sem os conceitos mais rígidos de Segurança, os riscos podem ir desde danos diretos às pessoas até gargalos na cadeia de suprimentos tecnológicos, tornando o desafio ainda mais complexo.
“Com as capacidades de autonomia e interação digital dos automóveis atuais, é possível para um hacker transformar um carro, na prática, em um míssil de duas toneladas, capaz de se mover à mais de 120 quilômetros por hora, com pessoas dentro dele. Ao mesmo tempo, essas inovações demandam uma ampla interdependência com fornecedores internacionais, que também precisam se engajar nos conceitos de Security first”, aponta Ghali.
Boas práticas de Cyber nos transportes
Esse contexto revela que a Segurança Cibernética deverá tomar parte dos objetivos corporativos, visando garantir o sucesso dessas inovações sem gerar risco às pessoas e à continuidade do negócio. Com isso, transformações nos espaços de transporte terão que ser acompanhados com regulamentações rígidas de conectividade, transformação do supply chain e fabricação de veículos pautados no Security by Design desses meios tecnológicos.
Na visão de Padilha, questões básicas, mas essenciais, à Segurança Cibernética terão parte fundamental na fabricação de automóveis no futuro. Isso inclui conceitos de micro-segmentação das aplicações veiculares, proteção de dados e acessos a esse ambiente e, ainda, a concepção de um Security Operation Center (SOC) especializado no monitoramento de ambientes automotivos.
“Hoje, os carros são, praticamente, computadores que transportam pessoas, e qualquer falha técnica exige uma conexão com outros hardwares para corrigi-los. No fim, não estamos mais falando de mecânica, mas de informática, e considerando essa complexidade, não podemos mais olhar para os veículos da mesma forma, pois a Segurança Cibernética se tornou crítica para proteger vidas no setor automotivo”, conclui o CISO.