A violência contra a mulher, historicamente enraizada no Brasil, encontrou no ambiente digital um novo e alarmante espaço de propagação. Com a popularização das redes sociais, práticas de misoginia, assédio e exploração ganharam dimensões complexas, manifestando-se por meio de ameaças, invasão de contas e uso de inteligência artificial para humilhação pública.
Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado/Nexus) revelam que cerca de 9 milhões de brasileiras (uma em cada dez mulheres com 16 anos ou mais) sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses. O cenário é agravado pelo crescimento das denúncias na SaferNet Brasil, que registraram um salto de 224,9% entre 2024 e 2025, reforçando a urgência de mecanismos de proteção mais robustos.
“Além da exposição indevida e danos à imagem, a violência digital gera traumas psicológicos profundos, isolamento social e prejuízos profissionais. É uma agressão que transborda o virtual e afeta diretamente a integridade da vítima”, afirma Daniela Nogueira, Head de Compliance da Tripla.
Entre as formas mais perigosas e recorrentes de ataques contra mulheres no meio digital, destacam-se:
– Misoginia e Stalking: Discursos de ódio e monitoramento obsessivo em redes sociais para intimidar ou controlar a vítima.
– Vazamento de conteúdos íntimos e Sextorsão: Divulgação não autorizada de fotos privadas (muitas vezes após o fim de relacionamentos) e ameaças de exposição para exigir dinheiro ou favores.
– Deepfakes e IA: Uso de tecnologia para manipular vídeos e imagens com fins difamatórios ou de exploração sexual.
– Roubo de Identidade e Invasão: Criação de perfis falsos e acesso ilegal a dispositivos, e-mails ou aplicativos de mensagens.
– Exposição Indevida: Inclusão de mulheres em fóruns ou grupos sem consentimento para fins de assédio coletivo.
Medidas práticas de proteção
Os diferentes tipos de violência digital contra mulheres exigem estratégias e cuidados específicos de proteção. Assim como cada golpe explora uma vulnerabilidade, tecnológica ou humana, existem medidas que podem reduzir os riscos e aumentar a segurança no ambiente online. Nogueira lista estratégias essenciais de segurança:
- Gestão de Acessos: Utilize senhas únicas (mínimo de 12 caracteres) e habilite sempre a autenticação multifator (MFA) em todos os aplicativos.
- Privacidade Exposta: Revise permissões em redes sociais. Evite compartilhar rotinas, endereços ou localização em tempo real. Prefira postar registros de passeios após o término do evento.
- Armazenamento e Contatos: Não mantenha fotos íntimas em dispositivos sem criptografia. Desconfie de links urgentes ou pedidos de dados em apps de namoro, mesmo que pareçam vir de conhecidos.
- Monitoramento: Configure alertas para o uso de seu nome ou imagem e utilize ferramentas que identifiquem perfis falsos rapidamente.
- Documentação: Em caso de ataque, registre tudo (prints, links e mensagens) para servir como prova pericial.
Canais de denúncia e Amparo Legal
O Brasil possui um arcabouço legal robusto para coibir essas práticas, incluindo a Lei do Stalking (14.132/2021), a Lei Carolina Dieckmann e a aplicação da Lei Maria da Penha para crimes virtuais. A denúncia continua sendo a principal ferramenta de interrupção da violência, vítimas podem recorrer aos números 180 e 190, às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), delegacias eletrônicas, Defensoria Pública ou organizações como a SaferNet.
“Informação é proteção. Conhecer os riscos, adotar medidas técnicas, guardar provas e saber onde denunciar fortalece a autonomia feminina e reduz a impunidade. A denúncia pode interromper ciclos de violência antes que eles se agravem”, conclui Nogueira.