Por Fábio Correa Xavier*
Por anos, a Inteligência Artificial ficou “presa” atrás do vidro do celular. Ela respondia em texto, gerava imagens, interpretava documentos e automatizava tarefas digitais. Em 2026, esse vidro começa a quebrar. A IA deixa de ser apenas um software que recomenda, resume e conversa. Ela passa a atuar no mundo físico, com braços, rodas, sensores e decisões que produzem efeitos imediatos na vida real.
O que mudou de verdade
A grande mudança não é “mais um modelo melhor”. É a convergência entre IA e hardware funcional. Em termos práticos, isso significa que a automação deixa de ser uma camada de produtividade no computador e vira execução no ambiente, em casa, no campo, no armazém, na clínica e na reabilitação.
Quando a IA ganha corpo, a pergunta deixa de ser apenas “isso está correto?”. Passa a ser também “isso é seguro?”, “quem responde?”, “quem audita?”, “quem desligará se der errado?”.
Sinais claros desta virada
1) Robôs e a era da IA física A CES 2026 explicitou um movimento que já vinha se formando. Robôs humanoides e automações logísticas ganharam destaque porque traduzem um novo patamar: sistemas que interagem com o ambiente e realizam tarefas físicas, não apenas análises e previsões.
2) Agro orientado por dados e soberania digital No campo, a IA deixa de ser acessório e vira infraestrutura competitiva. Antecipar surtos de pragas, otimizar custos e integrar gestão operacional com decisões financeiras altera o perfil do produtor. O risco estratégico é ficar dependente de plataformas e modelos que não refletem prioridades locais e regras nacionais.
3) Varejo e logística com foco em eficiência A pauta do varejo migra de experimentação para eficiência operacional. IA aplicada a logística, previsão de demanda, personalização e automação de fluxos de trabalho reduz custo e acelera execução. O desafio passa a ser menos “se vale a pena” e mais “como governar, capacitar e medir”.
4) Saúde e decisões críticas, velocidade versus responsabilidade Quando a IA entra em fluxos regulados, como renovação de prescrições médicas, a promessa é agilidade e redução de falhas. O preço é alto: exige rastreabilidade, supervisão humana bem definida, critérios de exceção e responsabilidade claramente atribuída.
5) O caso que muda a conversa: IA e interface cérebro-computador O ponto mais simbólico desta “carne digital” é quando a tecnologia deixa de automatizar tarefas e passa a reconstruir autonomia humana. Sistemas capazes de converter sinais neurais em texto e voz sintetizada mostram que a IA física não é apenas indústria e robótica. É também saúde, dignidade e acessibilidade, com implicações éticas relevantes.
Por que isso importa para você, agora
Porque o impacto deixa de ser abstrato. Um erro de recomendação em um chat é incômodo. Um erro em um robô, em um armazém, em um equipamento assistivo ou em um fluxo clínico é risco concreto. A discussão sobre governança, segurança, privacidade e responsabilização precisa acompanhar a velocidade do mercado.
Três perguntas para guiar a adoção responsável
- Supervisão está definida em que momento e com que autonomia?
- Existe auditoria técnica e operacional, com logs e rastreabilidade?
- O objetivo é produtividade imediata ou capacidade estratégica de longo prazo, com soberania digital e qualificação?
*Fábio Xavier é Diretor do Departamento de Tecnologia da Informação do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo