Mundo físico e espaço cibernético: riscos mais próximos do que se imagina

Michael O’Connell, VP e assessor executivo da NEC Corporation e atuou como diretor de suporte operacional e análise na sede da INTERPOL, na França, alerta: Suspeita-se que uma série de crimes com armas de fogo, como os que ocorreram no Brasil e na Nova Zelândia, no começo deste ano, tenham sido arquitetados e originados na deep e na dark web.

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Os países ao redor do globo estão à mercê de diferentes tipos de riscos à segurança, como contrabando de drogas, de armas e de pessoas, terrorismo, entre outros. Mas uma coisa todos eles têm em comum: a maioria dos ataques é arquitetada e gerenciada pela Internet. Hoje, é quase impossível desassociar as ameaças do mundo físico do virtual. De forma figurada, podemos imaginar que os dois âmbitos estão costurados por uma linha invisível que os aproxima cada vez mais.

 

Com a evolução do universo cibernético, aconteceu a proliferação de canais de comunicação que utilizam uma forma de criptografia que não está sob vigilância dos sistemas atuais, o que dificulta a identificação dos infratores no mundo real. O uso de dispositivos criptografados é muito comum entre os grupos que cometem tráfico humano, por exemplo. Os sistemas, cada vez mais baratos, são empregados com o objetivo de evitar a detecção por parte da polícia. Além disso, esses contraventores se valem, inclusive, de plataformas online acessíveis ao público, entre elas as redes sociais mais populares, a fim de anunciar vagas de trabalho fictícias ou encontrar associados para o seu negócio de fachada.

 

Em contrapartida, as autoridades precisam adotar práticas investigativas cada vez mais inovadoras com a finalidade de monitorar, detectar e deter os crimes. Uma excelente prática que vem crescendo é o estabelecimento de centros de inteligência que abrangem parcerias entre Estado, provedores de tecnologia e o meio acadêmico. Um dos destaques nesse sentido é o papel que a Inteligência Artificial (IA) e a tecnologia de Machine Learning vêm desempenhando, juntamente com os sistemas de biometria digital, como a impressão digital e o reconhecimento facial e da íris, na análise de dados. É por meio da utilização da IA e dos sistemas que orbitam em volta dela que podemos melhorar a fusão de dados multimodais e fluxo de vigilância para melhorar a compreensão e a análise, permitindo a consolidação da situação e a tomada de decisão mais ágil por parte das autoridades.

 

Suspeita-se que uma série de crimes com armas de fogo, como os que ocorreram no Brasil e na Nova Zelândia, no começo deste ano, tenham sido arquitetados e originados na deep e na dark web. Por isso, muito tem se falado sobre essas esferas desconhecidas das redes para a maioria dos internautas e a influência que elas exercem sobre as pessoas que as frequentam. Para conhecê-las e saber ao certo os riscos existentes ali, o primeiro passo seria um monitoramento profundo desses ambientes para, então, ter condições de entender quais ferramentas podem ser usadas para coibir ações criminosas, tanto no âmbito físico, como no virtual.

 

Após conhecer os resultados de pesquisas internacionais sobre as percepções das pessoas acerca do que consideram como riscos primários, no entanto, tivemos algumas surpresas. Ao contrário do que pensam os estrategistas de segurança, o medo a ataques terroristas ou crime violento representa apenas 20% e 30%, respectivamente, segundo o relatório global de riscos do Fórum Econômico Mundial 2019. Os ataques cibernéticos que ocasionam roubo de identidade e fraude ocupam o topo da lista, com 82%. Nesse contexto, um dado alarmante, de acordo com o estudo, é que o Brasil é o principal alvo de ataques online na América Latina, sendo que 54% deles podem ter origem dentro do próprio país.

 

Como forma de defender a sociedade e preservar sua segurança, precisamos construir uma melhor estrutura de resiliência diante das ameaças futuras e canalizar a inovação na criação de comunidades inteligentes e integradas, por meio de parcerias mais inovadoras e progressivas entre o setor público (incluindo governos e forças de segurança), setor privado (fornecedores de tecnologia) e as universidades. Se as fundações não forem fortes, o que fizermos estará fadado a se transformar em iniciativas vazias.

 

*Michael O’Connell é VP e assessor executivo da NEC Corporation e atuou como diretor de suporte operacional e análise na sede da INTERPOL, na França

 

 

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Rui Borges

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