Enquanto milhões de brasileiros ocupam ruas e blocos durante o Carnaval, criminosos digitais encontram no mesmo ambiente um cenário ideal para ampliar fraudes financeiras e ataques cibernéticos. Dados da Serasa Experian indicam que o período pode concentrar mais de 182 mil tentativas de golpe, o equivalente a uma investida a cada 24 segundos. Para a Redbelt Security, o número revela mais do que um pico sazonal e expõe como distração, alta circulação de dinheiro e avanço da inteligência artificial estão redesenhando o perfil das ameaças digitais no país.
A análise da consultoria aponta que os golpes deixaram de se concentrar apenas em fraudes técnicas e passaram a explorar, de forma sistemática, o comportamento humano. Entre os vetores mais recorrentes estão sites falsos de ingressos e camarotes, criados para capturar pagamentos via Pix e dados de cartão, além do crescimento expressivo de deepfakes e clonagem de voz com IA, usados para simular pedidos urgentes de familiares, executivos ou supostos representantes de bancos.
Segundo relatórios da Sumsub, as fraudes envolvendo conteúdos manipulados por inteligência artificial cresceram 126% no Brasil em 2025, colocando o país entre os que mais concentram esse tipo de ameaça na América Latina. “O que antes era um golpe oportunista agora se tornou uma operação estruturada, que combina automação, engenharia social e tecnologia de ponta para criar cenários altamente convincentes”, avalia a consultoria.
O Pix segue como um dos principais alvos, especialmente por meio de QR Codes adulterados e do golpe conhecido como “Pix por engano”, no qual a vítima é induzida a devolver valores fora dos mecanismos oficiais do banco e acaba perdendo o dinheiro duas vezes. Em ambientes de rua, também se intensificam os riscos relacionados a redes Wi-Fi falsas, maquininhas adulteradas e o clássico golpe da troca de cartões, que exploram pressa e aglomeração para capturar dados bancários e senhas.
Além das perdas financeiras diretas, a Redbelt destaca o aumento de ataques baseados em engenharia social, nos quais criminosos se passam por organizadores de eventos, seguranças ou “novos contatos” para obter informações sensíveis, credenciais de acesso ou induzir ações que comprometem dados pessoais e corporativos. “Esses golpes não dependem de falhas em sistemas, mas da exploração da confiança e da distração. É aí que a superfície de ataque realmente se amplia”, aponta a empresa.
Diante desse cenário, a empresa recomenda medidas práticas, como reduzir limites de Pix antes de sair de casa, evitar redes Wi-Fi públicas, conferir sempre o destinatário dos pagamentos, desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro e nunca compartilhar senhas ou códigos de verificação. O uso de autenticação multifatorial, cartões virtuais e carteiras digitais também é apontado como uma forma de reduzir a exposição a fraudes em ambientes de alto risco.
Para Eduardo Lopes, CEO da Redbelt Security, o Carnaval se tornou um retrato ampliado do cenário digital brasileiro. “A maioria desses ataques não é sofisticada do ponto de vista técnico, mas extremamente eficiente do ponto de vista psicológico. Entender como os golpes funcionam e como a inteligência artificial está sendo usada para torná-los cada dia mais convincentes é hoje uma questão de educação digital básica. Caso contrário, a festa termina não só em prejuízo financeiro, mas em perda de dados e exposição que pode ter impactos muito mais duradouros”, afirma.
A Redbelt reforça ainda que o período de folia ressalta um desafio que vai além do Carnaval: a necessidade de transformar segurança digital em hábito cotidiano. Em um cenário marcado por automação, pagamentos instantâneos e uso crescente de IA, a fronteira entre o mundo físico e o digital se torna cada vez mais tênue e, com ela, também os riscos associados a cada decisão tomada em poucos segundos, seja na rua ou na tela do celular.